sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

A certeza capaz de mudar uma vida

Às seis horas da manhã do dia 30 de dezembro, ele já estava na maca, esperando pra entrar no bloco cirúrgico quando se deu conta do que estava acontecendo. Toda a ansiedade que aparentemente não existira durante todos os meses de espera, surgia naquele momento. “Vou sentir alguma dor?”, perguntou ao anestesista. Por detrás da máscara, o médico calmamente respondeu que não e completou: “Luciano, não te preocupa, lá pelas quatro da tarde, tu vai ser Luciana”.
Há pouco mais de um mês, a cabeleireira de um salão de beleza de Montenegro, desfila o corpo condizente com a personalidade feminina que diz ter desde criança. O que pra muitos é tratado simplesmente como transexualismo, para o Ministério da Saúde é conhecido como Transtorno de identidade ou de gênero. Trata-se de uma inadequação entre o sexo físico e o psíquico, de origem psicológica, que normalmente se manifesta na infância.
Aos 11 anos, Luciana escondia-se para usar os sapatos de salto da mãe e pintar as unhas de vermelho. O estranhamento dos meninos na escola a respeito do jeito diferente, a fez começar a se questionar. “É muito difícil porque no começo tu não tem nenhuma explicação. Tu te acha a única no mundo. Pensa que aquilo ali é um problema gravíssimo, que tu está doente, que tem alguma coisa errada”, conta a jovem de 29 anos.
Segundo artigo publicado na revista de maior circulação entre os médicos (The New England Journal of Medicine), as causas do transtorno ainda são desconhecidas. Estudos sugerem que o distúrbio pode estar associado a alterações da arquitetura cerebral. Entretanto, são apenas hipóteses. As origens da transexualidade ainda são um mistério. A identificação com o gênero oposto não pode ser explicada por alterações hormonais, nem por anormalidades nos cromossomos, como muita gente pensa.

A necessidade do apoio

Até chegar à sala de cirurgia, Luciana trilhou um caminho difícil e cheio de obstáculos. Aos 14 anos foi questionada a respeito de sua sexualidade pelo pai. A resposta, dita com sinceridade pela adolescente, soou impactante. “Eu não tenho mais filho, então”, respondeu o patriarca. Desde então, nunca mais teve contato com ele. “Naquele momento eu tomei minha decisão. E dali por diante só foi uma melhora, inclusive pessoal, pois tu deixas de te esconder pra ganhar teu espaço no mundo”, conta a moça. A situação delicada foi um fato isolado na vida. A mãe, os irmãos, a tia e até a avó aceitaram a escolha de Luciana que diz ter superado o incidente. “Pra que eu ia dar bola pra uma única pessoa. Hoje eu o tenho como um estranho. Superei tranquilamente.Depois da cirurgia, até melhor”.
Na adolescência, o convívio com outros homossexuais mostrou que a diferença era mais comum do que ela podia imaginar. A curiosidade fez com que, aos poucos, fosse aprendendo com aqueles que sofriam com os mesmos questionamentos e descobriu que se tratava apenas de algo fora do conceito de normalidade da maioria. “Tu vai se conhecendo, eles vão te explicando e tu acaba enxergando outro mundo. Tu vê que não é só contigo, que tem outras pessoas. Só que no decorrer disso, ser homossexual é uma coisa, ser uma mulher no corpo de um homem é outra. Não é só a preferência.” De fato, o transtorno de gênero é diferente de qualquer outro conceito por não se tratar de uma escolha meramente sexual com relação ao sexo oposto. Luciana comenta que a maioria dos homossexuais são ativos e passivos, enquanto ela sempre se sentiu atraída por homens como qualquer mulher normal.

A decisão pela cirurgia

Aos 18 anos, através dos amigos, Luciana descobriu que o Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) oferecia um programa de tratamento para pessoas com Transtorno de gênero. Entretanto, apenas há 3 anos a decisão foi realmente tomada. Através da motivação e do esforço da proprietária do salão onde trabalha, Irmgard Klabunde, a jovem foi, pela primeira vez, conversar com um médico sobre o assunto que conhecia apenas em partes. Posteriormente, foi encaminhada à Assistência Social de Montenegro, onde teve o aval para começar a freqüentar o programa no hospital da capital. Todo o tratamento é custeado pelo Sistema Único de Saúde (SUS) que acredita, juntamente com a medicina, que viver com esse tipo de transtorno é viver em sofrimento crônico. A triagem dos pacientes a serem operados é intensa e pode durar cerca de 3 anos, como foi o caso da cabeleireira. “Tu passa, sucessivamente por muitas consultas com psicólogos e com psiquiatras. E eles te afirmam o tempo todo que tu é homem, mas isso é pra tu teres a tua certeza. Tanto que eu me lembro,no começo, eles me chamavam de Luciano e eu ficava lá sentada e dizia que não tinha nenhum Luciano ali.” A terapia de grupo assistida por profissionais é uma forma de proporcionar o auto-conhecimento dos pacientes que estão sendo avaliados.

A mudança de sexo

No mundo, a primeira cirurgia foi realizada em 1952. Na Dinamarca, George se tornou Christine Jorgensen e, no ano seguinte, foi eleita a Mulher do Ano por diversos jornais e revistas. A história se espalhou e surgiram milhares de candidatos à operação.
Quase 20 anos depois o procedimento chegou ao Brasil e sofreu alterações ao longo de sua inserção no meio médico. Até os anos 70, a cirurgia de alteração do sexo masculino para o feminino consistia na amputação do pênis e a modelação de um orifício funcional. Na década seguinte, a modelo Roberta Close mostrou o novo método para o país, na revista Playboy de 1984 com a construção de um feixe de tecidos semelhante ao clitóris. Atualmente, o desafio é reproduzir esteticamente uma vagina, preservando as terminações nervosas para garantir o prazer sexual. No entanto, a ingestão de hormônios é realizada tempo antes para modificar a estrutura do organismo que passará a atuar de forma diferente. A intervenção cirúrgica é o último estágio do processo de mudança de sexo. Para Luciana, tudo ocorreu da melhor maneira possível por causa do suporte que teve de toda equipe médica durante o programa. “Eu apaguei, acordei às três e meia da tarde. Daí tu coloca a mão ali e te dá uma sensação de felicidade. Virou uma página na tua vida. Depois eu fiquei lá sozinha e fiquei pensando que tu tens que ser muito homem pra fazer essa cirurgia. A cabeça da gente é muito louca. Se fosse outra pessoa qualquer, não iria fazer.”, comenta.

A repercussão

Luciana afirma que muitas pessoas que fizeram o programa com ela, desistiram no meio do processo. A certeza do gênero que se tem, nem sempre é um diagnóstico fácil de fazer em si mesmo. Entretanto, pros que têm absoluta certeza do que são, a cirurgia de mudança de sexo é a porta para uma vida nova. “É tudo novo.Desde o xixi até o absorvente que eu tive que usar. Mas pra mim foi bem fácil. Eu podia ter um órgão masculino, mas eu nunca usei como masculino. Foi fácil me adequar. Quando eu tirei a sonda 14 dias depois, o primeiro xixi eu imaginei que ia doer. Prendi a respiração e fiquei pensando na dor. Não doeu.” Mesmo após a cirurgia, o acompanhamento ainda é constante por conta do processo de cicatrização. Contudo, a receptividade dos amigos ajuda a reafirmar a decisão da jovem em assumir, buscar e alcançar a solução para o problema. A própria chefe de Luciana, admite que agora ela parece mais feliz, mais completa. Nem mesmo a questão do preconceito de alguns desfaz a mágica da nova realidade em que vive agora. Ainda segundo estudos médicos, o tratamento cirúrgico melhora a qualidade de vida da maioria dos que optaram por ele. Quando bem indicado, apenas 1 a 2% confessam arrependimento. Certamente esse não é o caso em questão. A felicidade estampada nos olhos e a tranqüilidade em falar sobre o assunto, mostram que Olga Luciana Klung – como estará registrado em sua documentação em breve – está certa a respeito do que é e feliz por ter conseguido enfrentar toda essa batalha de peito aberto. “Hoje eu vejo que tudo isso foi bom pra mim, porque aprendi a me conhecer mais. Tu aprende a lidar melhor com tudo. Tu avalia as coisas que já fez pra saber o motivo de estar ali. O importante é o que eu penso de mim. Isso é o que realmente importa.”



*Texto publicado na edição do Jornal Ibiá, de Montenegro - RS, no dia 23 de fevereiro de 2012.

domingo, 4 de setembro de 2011

Tenho a impressão de que é assim que o negócio funciona.


Torneiras eficientes em economia de água. Você aperta, a água sai por um determinado tempo e depois pára. Felicidade deve ser mais ou menos isso. Um botão que todos temos e, em determinado momento, alguém aperta e pronto! Com o tempo, esse botão vai voltando pro estado estático de origem até que alguém chegue ali e o aperte novamente. Tenho a impressão de que é mais ou menos assim que o negócio funciona.

Mesmo que você aperte o seu próprio botão, alguém ou alguma coisa sempre tem a ver com isso. Seus amigos, sua família, seus sonhos, um dia de sol ou o cheiro do seu prato preferido quando você está chegando em casa com fome. Tudo surge ao pressionar o botão.

O engraçado é que essa torneira nunca estraga. Ela emperra de vez em quando - pelo menos pra mim - mas parar de funcionar, nunca. Se ficar jorrando água por muito tempo é bom! Mas, períodos de seca e ferrugem podem ser sinal de que algo vai mal.

Assim como é fácil apertar o botão, alguém pode colocar ali, bem ali, qualquer coisa que inviabilize a torneira de funcionar. Angústias, medos, frustrações são pequenas sujeiras que não deixam o botão ser pressionado. Você mesmo pode emperrar sua torneira, veja bem.

Então, de repente, entender como se dá o processo pode ser bom. Ficar atento quanto ao uso da sua torneira interna é importante. Saber utilizar a dos outros, também. Tem muita gente que não mede o quanto vai apertar o tal botão alheio e fica ali, pressionando desenfreadamente, até que cansa e vai embora. O que vem depois você sabe.

Tudo excessivo tem suas consequências. Essa torneira foi feita pra evitar desperdícios, não deixar correr água desnecessária. Talvez o grande aprendizado da vida seja saber usar corretamente esse botão, em si e nos outros. Quando você cansa e vai embora, deixa ali, naquela torneira de alguém, algo que pode dificultar o funcionamento. Você a sobrecarregou. Até que o dono consiga arrumar pode levar tempo. Até que alguém venha e a ative de novo, também.

Não sei se nada disso é certo. Talvez até não. Mas ainda penso que felicidade é como essa torneira aí. Apesar de você ter um estoque infinito de água, a grande sacada é saber usar a sua juntamente com a dos outros. Você pode até não concordar, mas eu já disse, não sei se nada disso é certo. Apenas tenho a impressão de que é assim que o negócio funciona.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Solúvel ou Insolúvel?

Caráter. Paroxítona terminada em r que, segundo o dicionário Aurélio, significa o conjunto dos traços particulares, o modo de ser de um indivíduo ou de um grupo. Ou ainda, índole, natureza ou temperamento.
Na sociedade brasileira, uma pessoa mau caráter é mal vista, certo?

Parece simples. Mas o que é ter bom caráter? Significa a mesma coisa pra todos? Em termos gerais, se agrega caráter aos comprometidos com a verdade e com a honestidade. Atitudes politicamente corretas, etc. OK. Mas nem tudo que é certo pra mim pode ser considerado certo por você. E numa situação de desespero? Você consegue manter seu caráter intacto ou é capaz de omití-lo por alguns instantes pra livrar sua pele? Me fiz todas essas perguntas ao assistir o notíciário matinal. Duas notícias de impacto. Dois exemplos de caráter.

A primeira delas, foi a divulgação de que alguns policiais teriam recebido propina da família do rapaz que atropelou Rafael Mascarenhas, minutos após o acidente que o matou.

PAUSA. Quem é Rafael Mascarenhas? É um jovem que perdeu a identidade ao morrer, por ter nascido filho de uma conhecida apresentadora de televisão.

Família de classe média alta do Rio, jovem possivelmente cursando ensino superior, criação invejada pelos menos abastados mas, pelo visto, sem nenhum conceito moral. O pagamento da propina em prol da omissão da culpa do filho é o exemplo visível da perda súbita do caráter em um momento de desespero. (Não sei se esse pai já tinha algum histórico de mau caratismo, mas prefiro partir do princípio de que todos são inocentes.) Certamente tentarão justificar o fato com o amor incondicional ou com o famoso jeitinho brasileiro. No meu ponto de vista, jeitinho brasileiro é equivalente a falta de caráter, se não completamente, é caminho direto pra chegar lá. E amor de pai ou de mãe é algo que rompe todas as barreiras, mas pelo bem do próprio filho, jamais deve passar por cima do caráter ou você criará um delinquente em potencial.

A segunda notícia foi a respeito da morte de um adolescente de 14 anos por conta de um disparo de um policial. O jovem foi atingido na rua quando estava ao lado do pai. As imagens do notíciário são chocantes. O pai aos gritos na rua, incrédulo. O policial culpado, também incrédulo, sem entender o que, de fato, ele fez. O jovem, como já dito, morreu. O policial se apresentou à polícia espontaneamente como culpado.

A tendência natural é que toda a população dita possuidora de um bom caráter e, obviamente, senso crítico, volte-se contra os culpados em ambos os casos. Não há nada de errado nisso. Porém, tente prestar a atenção na diferença brusca de caráter nas duas situações.
Desconheço o motivo do disparo do tal policial, mas acidental ou proposital por qualquer razão, ao assumir a culpa, ele optou por ter um bom caráter mesmo em um momento de desespero.

Nada justifica nenhum dos dois crimes. Mas é válido lembrar que mesmo pessoas de um caráter singular erram. Entretanto, a coragem de assumir o erro e arcar com as consequências é a maior prova de bom caráter que uma sociedade pode ter. Sem esquecer que é o presente mais útil, pra si e pra todos, que um filho pode levar pra vida.


sexta-feira, 5 de março de 2010

Welcome to the jungle


Na troca diária entre uma turma e outra, uma colega brasileira da turma seguinte comenta: " Como é tua turma? Meu professor, desde o primeiro dia de aula, me trata diretamente como a menina que veio da floresta"

Silêncio. Olhares.

Uma revolta incontrolável se dissipa rapidamente pelo meu corpo. Não sei explicar ao certo o motivo daquela sensação, mas era como se me ofendessem de tal forma que não pudesse mensurar minhas reações. Ela prosseguiu: "No curso que fiz aqui em Paris no semestre passado, na prova final caiu um texto de uma revista renomada daqui, falando do Brasil como o país da salsa. E agora mais essa."

Saí da sala com o choro em vias de se pronunciar. Indigesta com tanta arrogância e ignorância. Esperaria aquilo de qualquer povo, menos do francês, sempre dito tão culto e instruído. Pensei na sorte que tive em fazer parte de um grupo onde o mais próximo do desconhecimento foi me perguntarem se no Brasil se falava espanhol.

Agora, depois de refletir até a cabeça doer, vejo que tudo não passa de simples prepotência. Consideram o Brasil inferior por não saberem absolutamente nada a respeito. Aliás, até sabem, mas conhecem a história dos relatos de Hans Staden. Só pode ser isso.

O que me intriga é o fato de no Brasil, sabermos sobre os mais variados povos e, mais do que isso, caso não saibamos, é fácil digitar www.google.com na internet e ir atrás de fotos e informações. Internet é uma rede mundial ou me engano plenamente?

A conclusão a que chego me leva a crer que, a França - pois só tenho conhecimento dela pra falar - vive ainda a ressaca dos idos de 1900. Onde, no fervor da evolução cultural parisiense, Paris era o centro do mundo e os franceses o povo mais culto entre os povos. Seguem cultuando essa sabedoria sobre tudo, de fato. Há livros e cultura por toda parte. É perceptível todo esse conhecimento. Mas ao mesmo tempo percebo muita ignorância. Uma falta de humildade que beira o descaso. Isso mancha por demais um lugar tão mágico como Paris.

Chamaria isso - usando um neologismo meu - de "francocentrismo". E então, chegaria a ponto de entender que patriotismo é um sentimento que bem ou mal, todos temos. E saberia ver que ofendê-lo com a ignorância é sentir que a floresta é, definitivamente, aqui.


quinta-feira, 22 de outubro de 2009

A Noite é de Arte e de Bar

Uma hora da manhã de quinta-feira. No ambiente iluminado com luzes vermelhas e sob os olhares estáticos dos astros do rock n´roll estampados nas paredes, clássicos do reggae são ouvidos da rua. Nem cheio, nem vazio. As pessoas conversam descontraídas, com copos de cervejas artesanais em punho. Não olham à volta. Curtem o som ritmado que sai dos instrumentos tocados no palco. Todas as noites de quarta feira seguem o mesmo ritmo. As cortinas de luzes do palco se abrem para receber músicos diversos, conhecidos ou não, que sobem no tablado, pegam um instrumento e simplesmente tocam. Ali, naquele pequeno espaço, cada um é apenas um amante da música, um ser que se empolga e se emociona com cada nota que sai do instrumento que traz em mãos.

Mad tem os olhos fixos, completamente absorto em um mundo paralelo. Tem colada ao corpo uma guitarra e, apesar de estar no palco com mais dois músicos, sente o conjunto de sons como se estivesse só. Bruno Croda Machado, 22 anos, é um frequentador sistemático das quartas livres do Art & Bar, na zona norte de Porto Alegre. Conhecido como Mad por conta da semelhança com o personagem da revista americana de William Gaines e de Harvey Kurtzman, o jovem data sua história com a música de berço. “Toco na noite desde cedo, mas sempre estive muito em contato com a música. Já toquei de tudo. Estou sempre em busca de novas frequências sonoras. Por isso estou constantemente conhecendo novos instrumentos. Posso não saber tocá-los. Tu tem é que descobrir os sons”, conta o músico que trabalha com edição, sonoplastia de filmes e toca músicas do cantor John Mayer na noite de Porto Alegre.

Na mesma sintonia o mais jovem do palco não pára um instante de brincar com as baquetas enquanto as reveza com um copo de cerveja sempre abastecido por um amigo espectador. “Música é uma arte única, que transmite diferentes impressões e sentimentos”, afirma Bruno Braga Pereira, baterista conhecido como Metallica. O jovem de 21 anos toca na noite porto-alegrense desde 2006 com diversas bandas, faz faculdade de Música e praticamente vive de estudar bateria e correr atrás de cursos especializados com músicos renomados.

Entre as notas que remontam uma melodia conhecida, a voz de Marcelo Brum soa no microfone como se o próprio Bob Marley estivesse presente. O público canta junto. Aplaude. Vibra com a performance do grupo. “Música é esperança, união, trabalho, força, espiritualidade. Me sinto à vontade tocando, concentrado, naturalmente com personalidade”, conta o jovem de 23 anos apelidado de Rasta.

Os três músicos são amigos dentro e fora do palco. Cada um com sua trajetória musical em curso, todas elas cruzadas nas quartas-feiras. Mad é o único que cursa uma faculdade não ligada à música. O estudante de Publicidade tem suas jornadas musicais mais cansativas por conta do trabalho e da faculdade que leva durante o dia. Mas cansaço pra tocar, definitivamente, não existe. “Quando toco com meus amigos me sinto realmente amigo, pois tocamos há muito tempo juntos e é uma forma de comunicação, da amizade muito verdadeira. Se o clima estiver ruim, o som sai uma droga”, afirma. O artista diz não querer viver da música, mas sim de som.

Metallica e Rasta não compartilham do mesmo objetivo. Completamente submersos no mundo da música, os dois projetam um futuro ligado a shows e a tudo o que esse mundo primeiramente noturno tem a oferecer. “É na noite que tudo acontece”, explica Rasta, que toca profissionalmente na banda Brilho da Lata. Metallica conta que é músico nas noites de Porto Alegre pelo dinheiro e pela alegria de estar divertindo as pessoas e compartilhando esse momento com os colegas de banda. “Me sinto criativo tocando. Me sinto realmente bem.”

Entretanto, os três dividem mais uma paixão além da música: a cerveja. O copo sempre cheio, e a música no ar. Esse parece ser o cenário perfeito. Para quem os vê de longe, fora dos palcos, não são nada mais do que jovens comuns, curtindo sua festa. Porém, de perto, devidamente munidos de instrumentos, o profissionalismo se mistura às sensações boêmias dos bares e à efervescência da noite. Rasta afirma que a boemia faz parte de uma escolha de vida. Entretanto, todos concordam que a fama de boêmio faz parte da maioria dos músicos. Isso, definitivamente, não importa. O que fazem é o principal.

Já passa das três da manhã. Metallica desmonta a bateria e guarda os pratos na mochila. Mad despluga os pedais. O bar está praticamente vazio. Entre tchaus e até logos, os guris esvaziam os copos e rumam vagarosos pra casa. Os astros do rock n´roll na parede podem descansar sossegados. A música está segura nas mãos dos jovens músicos porto-alegrenses.



sexta-feira, 17 de julho de 2009

Pequena reflexão biológica

Confesso que, quando informada a respeito do evento, ignorantemente me questionei: “Crítica Genética? O que diabos?”. Imaginei algo relativo à biologia, ciências médicas ou algo do gênero. Eis que, para minha surpresa, a II Jornada Internacional de Crítica Genética era muito mais do que o esperado. E o melhor, nada tinha a ver com as áreas biológicas.
Foram dois dias de exposições a respeito do estudo da genética literária. Sim. Literária. Estudos sobre o processo de construção de um produto final: um poema, um livro ou uma crônica. De uma forma indireta, passei a olhar os acervos como uma grande célula e, em seu estudo interno, cada estrutura era desmistificada como antigamente em meus tempos de colégio.

Prof.Dr. Carlos Reis, com seu sotaque inconfundível, explanou, com a maestria já esperada, sobre a consciência da escrita. Seria, na minha analogia biológica, o papel da mitocôndria ou, ainda assim, a respiração celular. Falo em respiração por ser algo incontrolável e involuntário, como penso que, muitas vezes, constitua o ato de criar ou, ainda, de perceber o momento da criação. Os autores mencionados, ao analisarem a forma como produziam seus textos, terminavam por perceber que, muitas vezes, o ato de escrever, fluía como um pensamento dito em voz alta. Uma reflexão. Às vezes, um reflexo tão interno que saía meio sem jeito, parecendo sem sentido, no entanto revelador: “Aquilo que escrevi como autor de mim”, como escreveu Sophia de M.B.Andressen.
O professor Reis trouxe muitos exemplos, desde Miguel Torga até Almeida Garret e Camões. Todos eles exemplos de como a consciência da escrita está presente em quem produz formas literárias.

A Casa de Rui Barbosa veio pra mim como o Complexo de Golgi de uma célula eucariótica. Segundo livros conceituais, a organela funciona como uma espécie de sistema central de distribuição na célula atuando como centro de armazenamento, transformação, empacotamento e remessa de substâncias. Não poderia ter uma definição melhor. A representante da Instituição, Profa. Dr. Eliane Vasconcelos, mostrou a Casa de Rui Barbosa como uma verdadeira central de acervos, na qual os mesmos são armazenados, organizados, estudados e depois disponibilizados para pesquisa. Curiosidades reveladoras e, resultados de alguns estudos, mostraram o potencial intelectual dos pesquisadores e dos gerentes que levam a instituição. Eliane Vasconcelos ainda relatou os obstáculos oferecidos por algumas famílias detentoras dos acervos e outras que, por sua vez, facilitaram o processo de disseminação da informação e do estudo.

As mesas com os Coordenadores dos Acervos foram úteis para elucidar o trabalho desenvolvido no Delfos. Confesso ter sentido a falta do Prof. Dr. Antônio Hohlfeldt, que muito teria dito sobre a pesquisa em Comunicação Social, hoje quase invisível diante dos jovens acadêmicos. Os demais professores, todos merecidamente qualificados, ofereceram informações sobre os processos de pesquisa e constituição dos trabalhos desenvolvidos no sétimo andar da Biblioteca Central da PUCRS, no Delfos.

O cronograma do segundo dia deixou-me ansiosa pela continuidade do evento. A plenária com os membros da ANPOLL, Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Letras e Lingüística, não podia ter sido mais promissora. O depoimento do tradutor italiano que, infelizmente, me foge à memória, deixou-me extasiada com as dificuldades enfrentadas no próprio meio de pesquisa por esses profissionais tão importantes. Creio que eu mesma tenha chegado a dar pouca ou até mesmo mínima importância aos tradutores como autores. Todavia, aprimorei minha opinião e, hoje, sinto-me mais justa e repleta de argumentos para impor os valores desses profissionais no meu meio de atividades. A bolsista de pós graduação que relatou suas aventuras no mundo de Caio Fernando Abreu, abriu portas e janelas para nós, bolsistas iniciantes. Era visível um prazer incomensurável nas palavras por ela proferidas, enquanto contava os causos e percalços ocorridos durante a pesquisa ainda inacabada.

E assim, entramos tarde adentro com a mesa de autores e seus documentos de processo. Os Prof Assis Brasil e René Gertz que me perdoem, mas a palestra mais esperada pela maioria dos bolsistas era, sim, a do Prof. Carlos Gerbase. E não deixou nada a desejar. O mundo do cinema até então aparentemente distante do mundo literário da crítica genética, imergiu na idéia principal do evento e trouxe casos pra lá de interessantes sobre direito autoral, reprodução de obras para outros meios e técnicas cinematográficas. As perguntas não cessavam um minuto. Todos pareciam querer saber mais e mais sobre esse meio de estudo ainda restrito.

O encerramento deixou um gostinho bom. Uma vontade de ir além. Lembro-me de ter comentado em casa que, se eu ainda tinha alguma dúvida a respeito do que eu queria fazer da minha vida, esta já não existia mais. E, da Crítica Genética, que nada tinha a ver com a biologia, restou as minhas próprias organelas, sendo o Delfos meu Complexo de Golgi, o jornal Movimento meu núcleo, a crítica genética minha mitocôndria e eu, por fim, um pequeno fagossomo, me alimentando de tudo o que essa grande célula chamada pesquisa pode me proporcionar.

*Texto referente a II Jornada Interncional de Crítica Genética, realizada na PUCRS nos dias 2 e 3 de julho de 2009

terça-feira, 5 de maio de 2009

Com quantas malas se faz uma viagem?

“ Isso só pode ser algum tipo de praga! Perderam minha mala de novo?”. Os olhos já cansados por detrás das lentes multifocais insistiam em procurar na esteira de malas alguma bagagem familiar. “ Vô, como era mesmo a tua mala?”

Assim foi pra ele a sua segunda chegada na Europa. A segunda vez em menos de um ano. A segunda vez que ele mesmo prometeu a si próprio. A segunda de muitas.

Na saída do desembarque, o filho agora radicado em Londres o espera com um sorriso saudoso. “ Não acredito que perderam tua mala de novo, pai!”

No metrô, a caminho do hotel, tudo é novo mesmo sendo visto pela segunda vez. Os olhos procuram curiosos na relação de estações o local onde deve descer. “ Qual é essa estação mesmo?” No caminho, vai contando as novidades que trouxe do Brasil. “Me matriculei num curso de inglês. Vou estudar essa língua até morrer!”

Os mais de 70 anos em momento nenhum parecem colocar um ponto próximo de fim. O contrário é uma realidade. “Agora quero viajar, conhecer esse baita mundão.”

Ele não precisa se preocupar em como as rotas de trem funcionam, nem em que ônibus pegar pra ir pra casa do filho. A neta que o acompanha tem a função de facilitar ao máximo a viagem. Mas ele não quer! Almeja entender tudo a sua volta. Necessita mostrar sua juventude por detrás dos olhos já marcados pelos anos que deixou pra trás. “Dessa vez eu vou andar na Nonoai”. “É London Eye, Vô”. “ Eu sei, mas quando estive aqui ano passado a gente chamava de Nonoai!”

Para a neta, viajar com o avô era algo que parecia estranho. Mas, de repente, ela viu que a idade é algo que está apenas estampado nas rugas e sinais de velhice.

Londres passou como um tufão. London Eye, Big Bang, Parlamento, Galeria Nacional, Wallace Collection, Oxford Street, Leytonstone, Notting Hill, tudo!

No caminho percepções de um jovem de idade descobrindo o mundo diante de uma jovem descobrindo a vida. “ Tu tá pitando, guria?”. “ Vô, me ensina a fechar um cigarro?”. “ Bah, isso me lembra a época em que eu trabalhava na fazenda. Senta aqui que vou te ensinar a fazer um palheiro de verdade .”

A capital francesa surgiu como nas fotografias. Linda. Algumas dificuldades com a língua local e com a teimosia típica de quem já viveu bastante deparada com a de quem ainda está começando. Mas nada que pudesse estragar o momento. “ Vô, é pra lá que a gente tem que ir!”. “Não mesmo, é pra lá, guria!”.

Sacre Coeur, Torre Eiffel, Gallerie Lafayette, Champs Elysées! “ Vô, quero vir morar aqui, nem que seja pra trabalhar como faxineira.” E então, pensamentos que antes eram tidos como convicções aos poucos foram mudando. Para ele um diploma ainda é algo importante, mas não mais do que conhecer o mundo e ser feliz, da forma que for. “Então vem, ué! Tá esperando o que?”

Os dias passaram sem dó. Porém, aproveitados ao máximo, com tudo o que se tem direito. Juntos, o avô que descobria o mundo e a neta que descobria o avô, viram como essa relação familiar pode ser aproveitada de forma única. “ Onde é que aperta pra bater a foto mesmo?” Nem mesmo os diferenciais físicos adquiridos com a idade puderam afetar algo que se tornava sólido e incrível. “ Ai, Deus, como ronca essa criatura.”

Nada poderia estragar aquele momento. Sensação única de estar vivo e de romper com todas as barreiras. Sensação de ser jovem outra vez e de viver como nunca!

E a mala? Bom, a mala era o que menos importava, pois a bagagem adquirida durante aqueles dias não caberia nem em todas as bolsas do mundo.