quinta-feira, 31 de maio de 2012

Superação como condição para sobreviver

“Estamos aqui para ajudar nossas famílias que ficaram lá! Essa é a nossa responsabilidade”, afirma Ezechiel Charles, um dos 24 haitianos que foram trazidos para Montenegro, para trabalhar na empresa Agrogen. Ainda em processo de adaptação com a língua e, principalmente, com o frio, os novos “gaúchos” trazem no olhar as marcas do caminho trilhado até o Brasil, e no sorriso a esperança de dias melhores.
Ivia Olivier, Mariciledesir, Aldajuste Nasson e Jean Wener Chal, junto com Ezechiel, acreditaram nas promessas de sucesso, dinheiro e prosperidade que circulavam em seu país a respeito do Brasil. Nenhum deles se conhecia, porém, todos compartilhavam o sonho de ajudar a família a sobreviver com os ilusórios salários de cerca de R$ 3 mil supostamente pagos por aqui. Vieram de forma independente, sem contrato ou vinculação com qualquer empresa, sem lugar para ficar ou contato de conhecido brasileiro que pudesse auxiliar. Um pouco de dinheiro para pagar as passagens e muita vontade de mudar de vida era tudo o que traziam na bagagem. 

Saíram do Haiti em janeiro deste ano sem data para retornar. Fizeram, de avião, uma rota bastante conhecida entre os haitianos. Passaram pela República Dominicana, Panamá e Peru, onde entraram em terras brasileiras através do Acre. “Nosso país é muito pobre. Já era antes do terremoto, mas ainda conseguíamos levar a vida. Depois da catástrofe, nos vimos obrigados a deixar o Haiti para buscar melhores condições. Era a única esperança”, explica Ezechiel.
No trajeto até a fronteira do Peru com o Brasil, tudo ocorria bem até perceberem que o suborno de peruanos, para atravessar o limite entre os dois países, era rotina. “O governo peruano não deixou eles entrarem aqui. Vieram de forma ilegal, com os coiotes. Eles contam que pagaram 100 dólares para poderem atravessar a fronteira”, comenta Charles Eduardo Stefanello, coordenador de produção da Agrogen, que foi buscá-los no Acre. O impasse para sair do Peru e chegar à Brasiléia, cidade brasileira na fronteira com o estado nortista, custou todo o dinheiro que traziam consigo e três meses dormindo na rua e trabalhando exclusivamente por comida até a situação se resolver.

Pelo mundo em busca de um sonho maior
Ezechiel tem apenas 25 anos. Cursou até o segundo ano da faculdade de Ciência da Computação, no Haiti. Ele conta que, antes do terremoto que devastou seu país, em janeiro de 2010, a vida era difícil. Entretanto, após a catástrofe, a situação se tornou insustentável.
“Depois do tremor, tivemos medo que houvesse outro e fomos obrigados a sair do país e buscar outra alternativa”, lembra. Emocionado, ele afirma que perdeu pessoas queridas no desastre e que a pobreza, o desemprego e a violência atingiram níveis assustadores e sem perspectivas de solução.
O jovem é um dos únicos imigrantes que possui um grau de instrução mais elevado. É tido como um dos líderes por ter conhecimento de outras línguas, entre elas a espanhola e o inglês, o que o torna um facilitador da comunicação entre os funcionários brasileiros e os haitianos, na Agrogen. 
Curioso, ele faz perguntas sobre o Brasil, questiona como é viver em São Paulo e se mostra esperançoso com a vida que se projeta daqui para frente. “O motivo principal de estar aqui é juntar dinheiro para conseguir continuar meus estudos e ajudar a minha família”, afirma. Concluir a faculdade deixou de ser algo possível para se tornar um sonho distante.
Os outros, em sua maioria, eram comerciantes em suas respectivas cidades e, como Ezechiel, perderam junto com parentes e bens materiais a perspectiva de felicidade pela qual vinham batalhando até perderem tudo com o terremoto. O que restou, além dos escombros, foram esperança e força. Muita força.

Ações em nome de um futuro
Jean Chal tem 40 anos. Tem, também, nos olhos, marcas de saudade. “Tenho esposa e três filhos. Como faço para trazê-los para cá?”, questiona, auspicioso.  Charles comenta que os trouxe a Montenegro para adquirirem um celular cada um. Jean gastou todos os créditos que colocou, no dia da compra, para falar com a família.
Marcos Antonio Matte, líder de produção da Agrogen, também conta que frequentemente é solicitado para ajudar a realizar ligações para o Haiti. “Esses dias, um deles vibrava ao conseguir completar a ligação. Acenava para mim com os polegares, sorrindo, por ter conseguido”, lembra.
O coordenador de produção também menciona outra moça do grupo, que quase desistiu do emprego na granja por achar que não conseguiria trabalhar na função para qual foi designada. “Ela disse que nunca tinha trabalhado na vida. Provavelmente a família tinha um poder aquisitivo maior para ela nunca ter precisado batalhar por dinheiro”, especula Charles.
De fato, a história diferente que cada um conta é uma amostra da realidade difícil que paira sobre o pequeno país, e o quanto de suas vidas está sendo sacrificada nessa tentativa de recomeçar. Quando foram propostos para o emprego no Rio Grande do Sul, havia 250 haitianos no alojamento, em Rio Branco, no Acre. Os 24 que se interessaram em vir para o Estado tiveram seus documentos regularizados na imigração, ganharam visto e carteira de trabalho. Agora são como qualquer outro cidadão, com direitos e deveres, porém, alguns medos e receios a mais. “Tem racismo no Brasil? Se algum dia eu for vítima de preconceito aqui, volto pro Haiti”, afirma Ezechiel. “Os brasileiros são sensíveis, compreensivos, nos ajudam e são alegres como nós”, termina.

Recrutamento foi até o Acre
A dificuldade de contratar mão de obra para algumas unidades produtivas aqui no Estado, e também em Minas Gerais, fez a Agrogen buscar uma alternativa inusitada. Foi assim que surgiu a ideia de dar uma oportunidade de trabalho para haitianos. A seleção foi realizada em abril, em Rio Branco (Acre)e, desde o final do mês passado, eles se encontram em solo gaúcho, em três unidades da empresa.
A coordenadora de Recursos Humanos da Agrogen, Vanessa Lermen, conta que leu uma reportagem sobre a migração de haitianos para o Brasil em busca de emprego e uma nova vida, já que seu país fora devastado por dois terremotos em 2010. Daí surgiu a ideia de buscar a contratação dessas pessoas. “Eu estava no Paraná e conversando com uma consultora sobre a dificuldade de contratar mão de obra. Então ela comentou que havia escutado boas referências sobre a mão de obra dos haitianos. Pensamos que seria uma ideia boa aliarmos a oportunidade de ajudarmos essas pessoas e resolver o nosso problema com a escassez de trabalhadores, que atinge o setor avícola”, explica.
A partir daí, foi feito contato com o governo do Acre, que serve de porta de entrada para os haitianos no país. “Fomos atendidos pelo secretário municipal de Brasiléia, cidade que se especializou em acolher os haitianos que nos informou que os mesmos estariam entrando no país por Rio Branco, sua capital. Na medida que o governo federal fosse autorizando a entrada deles, que estavam na fronteira do Brasil com o Peru, fariam contato para que fossemos recrutá-los”, conta Vanessa.
A liberação da entrada dos haitianos no Brasil foi feita apenas no dia 17 de abril, para 240 pessoas. Assim, no dia 18 de abril, o coordenador de produção da Agrogen, Charles Stefanello, e Juliana Coser, do setor de Recursos Humanos da empresa, foram até Rio Branco, para selecionar e recrutar os haitianos. Dos 32 contratados, dez foram para as unidades de Montenegro, dez para São Francisco de Paula, quatro para Triunfo e oito para Sete lagoas (MG).

Sobre o Haiti
- O Haiti é o país mais pobre das Américas. Ao mesmo tempo, foi a primeira república negra do mundo a declarar sua independência.
- Cerca de 80% da população vive em situação de extrema pobreza com menos de dois dólares por dia e situa-se em uma área no globo que é bastante propícia a ser atingida por furações e terremotos.
- Uma das línguas oficiais do país é o Francês, porém, apenas 10% da população a utiliza. A maioria fala o Crioulo, língua oficial junto com o idioma da minoria.
- Desde junho de 2004, Argentina, Benim, Bolívia, Brasil, Canadá, Chile, Croácia, Equador, Espanha, França, Guatemala, Jordânia, Marrocos, Nepal, Paraguai, Peru, Filipinas, Sri Lanka, Estados Unidos e Uruguai compõem as tropas que integram a Missão de Paz no Haiti. É uma iniciativa da Organização das Nações Unidas (ONU) para reconstruir e estabilizar a República. 
- Em janeiro de 2010, um tremor de terra de 7 graus na escala Richter devastou o país e agravou a situação dos mais de 10 milhões de haitianos. No desastre, pelo menos 200 mil pessoas morreram, 800 mil ficaram feridas, 4 mil foram amputadas e quase 2 milhões desabrigadas. E esse número de óbitos só contabiliza os sepultados oficialmente. Os que nunca foram retirados dos escombros nem os que foram enterrados pelas famílias estão incluídos. Se contados, o número estimado chega a quase 700 mil mortos. Foi a terceira maior catástrofe do mundo.

CNIg aprovou concessão de vistos
 
Segundo a coordenadora de Recursos Humanos da Agrogen, Vanessa Lermen, a idade dos haitianos trazidos pela empresa para o Estado e para a cidade de Sete Lagoas, em Minas Gerais, varia de 22 a 52 anos, sendo 26 homens e seis mulheres.
Vanessa conta que a contratação foi realizada no regime de Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT), “com todos os benefícios legais e, em alguns casos, com acompanhamento psicológico. Por causa de algumas denúncias de promessas não cumpridas por parte de algumas empresas, o Ministério do Trabalho monitora todas as empresas contratantes”, explica.
O processo de espera por uma oportunidade de trabalho não é dos melhores. De acordo com Vanessa, em Rio Branco, os haitianos recém-chegados recebem assistência médica, alimentação e hospedagem em uma pousada onde cabem até 80 pessoas precariamente. “Lá, eles fazem exame para detectar Aids, Cólera e outras doenças, além de tomar vacinas contra Hepatite, Tétano e Febre Amarela”, conta.
Segundo ela ainda, o Conselho Nacional de Imigração (CNIg), órgão ligado ao Ministério do Trabalho e Emprego (TEM), aprovou  a concessão de 1.200 vistos por ano para haitianos que pretendem migrar para o Brasil. O documento, válido por cinco anos, dá direito de o estrangeiro trabalhar e trazer a família para o país pelo mesmo período.

*Matéria publicada no Jornal Ibiá (Montenegro -RS) de 10 de maio de 2012, em co-autoria com Pedro Giumelli, no qual participei fazendo a entrevista com os haitianos. Matéria com fotos aqui


quinta-feira, 12 de abril de 2012

A incrível arte de ser mulher

“Elas vinham num panelão grande, com água quente – pra tirar a banha que tinha dentro – daí a gente deixava esfriar e no outro dia ia botando em cima de uma mesa grande. E o chefe ficava ali do lado. Às vezes, ele até nos ajudava a rotular as latas”, conta, com voz rouca, Lídia Lúcia Schu, de 96 anos. A moradora de Montenegro, natural dos arredores de Taquari, junto com mais cinco outras moças, fez parte do grupo das primeiras mulheres a serem empregadas em uma fábrica de conservas da cidade, por volta de 1935. “Não havia moças trabalhando. Então, meu cunhado, que trabalhava lá, ficou encarregado de encontrar seis moças – de família – pra ajudar com as latas de conserva”.

Dona Lídia presenciou uma parte importante da história da participação da mulher na sociedade. Viu as saias diminuírem de comprimento, os sapatos ganharem saltos altíssimos, os pais deixarem as filhas irem sozinhas aos bailes e as parteiras darem espaço às clínicas obstétricas.
A vida da única remanescente dos oito filhos do casal de agricultores, mãe de três filhos, avó de três netos e quatro bisnetos remonta a trajetória de lutas das mulheres em busca de igualdade de direitos perante a sociedade. É, também, um registro da evolução do papel da mulher na história de Montenegro.

Para tanto, as mudanças na realidade feminina demoraram para começar a engrenar. A Revolução Industrial, na segunda metade do século XVIII, abriu as portas das fábricas para operárias mulheres que, mesmo com salários até 60% menores que o dos homens, ganharam o direito de trabalhar fora de casa. Com isso, o preconceito e a discriminação masculina chegaram a níveis assustadores. Em uma fábrica de Nova Iorque, 129 tecelãs se mobilizaram em uma greve em prol de melhores condições de trabalho e redução da carga horária de 12 horas diárias. Como reprimenda e forma de coibir esse tipo de protesto, a polícia e os patrões trancaram as funcionárias dentro da fábrica e atearam fogo. Todas elas morreram carbonizadas. Esse dia era 8 de março de 1857.

Uma luta que começou sem prazo para terminar

Dona Lídia nasceu no 12° dia do mês dezembro, no ano de 1915. Veio para Montenegro com 17 anos. Até então, a realidade feminina se resumia em maternidade e cuidados com o lar. Fazer um bom casamento era sinal de encaminhar a vida, e sair desacompanhada dos pais ou do marido era mal visto e inviável diante da condição social imposta à mulher. “Antes de vir morar em Montenegro, eu ficava ansiosa esperando pelos bailes. As moças iam de carreta e os pais tinham que ir junto. A gente ia com uma roupa e lá pela meia noite trocávamos para uma vestimenta de festa”, conta.

Antes mesmo de Dona Lídia ir ao seu primeiro baile, uma revolução feminina já se fazia ouvir em alguns cantos do planeta. Na Dinamarca, em 1910, a segunda Conferência Internacional de Mulheres Socialistas debateu o ocorrido com as 129 operárias carbonizadas e, para homenageá-las, decidiu criar uma data para refletir sobre o papel da mulher na sociedade. Em 8 de março de 1911, na Europa, mais de um milhão de mulheres celebraram o dia, que passou a ser lembrado no mundo inteiro a partir de então.

E há quem pense que tudo começou aí. Mas desde a revolução francesa, em 1789, as mulheres já vinham questionando seu papel social e reivindicando maior igualdade de direitos. Entretanto, os tempos eram outros. Como os movimentos foram acontecendo – e sendo reprimidos - aos poucos, em diversas partes do mundo, as informações demoravam para chegar e se disseminar. Era a persistência e a determinação das mulheres que levariam, grão a grão, às mudanças que ocorreriam com o passar dos anos.

A quebra de tabus

Dona Lídia passou da fábrica de conservas para uma de palitos, onde permaneceu por cerca de 10 anos até demitir-se para casar. “Na fábrica de palitos tinha muitas mulheres trabalhando. Todo mundo precisava trabalhar pra ajudar em casa”, explica. Ela conta que, diferente do que ocorria nos resto do mundo, as mulheres eram respeitadas no ambiente de trabalho, numa jornada que durava de 8 a 10 horas. Contudo, Lídia ressalta a hostilidade de alguns diante do – ainda pequeno- espaço alcançado pelas mulheres: “Alguns homens achavam ridículo mulheres tomarem banho de mar, de maiô, com os homens ali, junto delas”, lembra. De fato, demorou para que as mudanças se tornassem significativas. Mesmo depois de casada, Lídia continuou trabalhando em casa, criando os três filhos. Posteriormente, trabalhou com limpeza e aposentou-se como costureira. Os trabalhos designados às mulheres ainda tinham um caráter secundário o que só veio a mudar mais tarde, com o avanço da tecnologia e a necessidade de mão-de-obra intelectual. Somente a partir daí é que se criaram condições favoráveis para a inserção do trabalho da mulher em outros setores. Na época de Dona Lídia, a predominância de cargos intelectuais se restringia aos homens. Para as mulheres, restava apenas o magistério. “Na minha época, ser professora era uma coisa maravilhosa”, comenta. Pequeno, porém não menos importante, era um sinal de que as coisas estavam começando a mudar.

O espaço da mulher começa a se solidificar

E de fato, os tempos mudaram. As mulheres com maior grau de escolaridade passaram a assumir cargos de liderança nas escolas, universidades, cidades e até países. Com a independência, veio a redução das taxas de natalidade e a auto-suficiência. A fragilidade e a dependência feminina deram lugar a mulheres fortes e decididas em busca de seu sucesso profissional e pessoal. E os contrariados que se acostumem com isso. Entretanto, isso não quer dizer que a luta chegou ao fim. Por menor que seja, o preconceito e o machismo ainda persistem em algumas culturas. Inclusive aqui. A Lei Maria da Penha não deixa nenhuma mulher brasileira esquecer que ainda existe hostilidade no país.

Dona Lídia provavelmente não verá o dia em que os direitos serão iguais entre homens e mulheres. E talvez muitas jovens de hoje, também não. Porém, o caminho está trilhado. As discussões, aos poucos, estão repercutindo. Que a cada 8 de março, milhões de mulheres como ela possam contar suas histórias de luta e contagiar outras tantas pessoas com a vontade de ter uma sociedade mais justa e igual pra todos.


*Texto publicado no dia 8 de março de 2012, no Jornal Ibiá (Montenegro -RS)

terça-feira, 3 de abril de 2012

Em busca de proteção para lecionar

Dificilmente há alguém que discorde que, para haver alto grau de eficácia na aprendizagem, uma boa relação entre professor e aluno deve ser estabelecida. Entretanto, diferente dos costumes de antigamente, que colocavam o professor como referência de conduta, provedor de todo o conhecimento e merecedor do respeito dos aprendizes, hoje se tornou comum, na mídia, a divulgação de situações de violência contra os docentes, seja esta moral ou até mesmo física. O estopim para essa mudança nas últimas gerações, ainda é um mistério. Contudo, diversos projetos de lei tramitam no governo buscando reconstruir as relações de respeito entre aluno e professor em sala de aula.

O projeto de lei (PL) 267/2011, da deputada Cida Borghetti do Partido Progressista do Paraná, (PP-PR) é um deles. Apresentado em fevereiro do ano passado, o PL estabelece punições para estudantes que desrespeitem professores ou violem regras éticas e de comportamento de instituições de ensino. A proposta muda o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA – Lei 8.069/90) e inclui o respeito aos códigos de ética e de conduta como responsabilidade e dever da criança e do adolescente que tem a condição de estudante. De acordo com conteúdo publicado no site da deputada, sobre os objetivos da proposta, o projeto poderia ser definido pela palavra “deveres”. “Não estamos falando em punição, e sim, em responsabilidades do aluno. Como há direitos, incluímos os deveres no caso de comportamento agressivo ou perturbador”, afirma Cida Borghetti em material divulgado no site. Para a psicanalista Adriana Bandeira, atuante em Montenegro, quando é necessário buscar auxílio de instância jurídica para determinar comportamentos de responsabilidade e de ética, é porque algo vai mal. “Não podemos deixar de apontar o grande sintoma social que representa, no sentido de tornar dever o que, de fato, estaria no campo do direito. É direito das pessoas tornarem-se cidadãos capazes de respeitar o outro, de fazerem-se aprendizes. Não por isso ou aquilo, mas porque o ser humano é, sempre, sujeito de aprendizagem. Se ela não acontece, há algo errado”, explica.

A educação é feita de relações

A professora de Artes, atuante no Ensino Médio e Fundamental, Tássia Renata Dörr comenta que o projeto está vindo em uma boa hora. “Não vejo mais aquela relação de respeito que havia antigamente. Hoje em dia o aluno não pede mais para ir ao banheiro, ele comunica que está indo. A pergunta se tornou outra porque eles sabem o que querem e falta limites. Então o professor agrega a tarefa de colocar o limite além de educar”, explica a docente de 26 anos. Tássia contabiliza apenas um episódio de problema com a conduta de aluno e reforça a necessidade do professor buscar se integrar na realidade vivida pelo jovem para estreitar laços de confiança e respeito. Ela explica ainda que situações de violência contra o professor sugerem a desconfiança de que o seu desempenho profissional possa estar indo na direção errada. “A gente é sozinho como professor. E quando acontece esse tipo de caso, a gente se cobra até que ponto estamos sendo bons professores. A gente chega num limite”, desabafa. Thais Gaia Schüler é professora de História do Ensino Médio, em Montenegro, e compartilha de muitas das opiniões de Tássia. Ela explica que as relações entre alunos e professores não devem ser pautadas pelo medo, como muito se via antigamente. “É importante buscar ter um bom relacionamento e ser um professor que está próximo da realidade daquele aluno”, afirma. Ela defende o papel dos pais em educar os filhos e darem o exemplo de uma conduta social apropriada. “Muito mais do que um aluno ser um problema, é o meio em que ele vive. Não é somente papel da escola educar. Todo mundo sabe dos seus direitos, mas esquece dos seus deveres”, comenta a jovem de 28 anos.

Em busca de medidas que protejam a docência

A psicanalista Adriana Bandeira explica que professores, enquanto seres da linguagem, buscam engendrar novas perspectivas e entendimentos que, quando não podem ser exercidos, se transformam em dor. “Neste sentido, um projeto de lei que venha transformar em dever o que é de direito, apenas tapa o sol com a peneira. Também é tapar o sol com a peneira as obrigações dispostas aos professores em que devem estudar, participar de cursos e serem agentes de inclusão, quando não são devidamente reconhecidos, remunerados, quando não lhes é disponibilizado tempo para tornarem-se, cada vez mais, agentes da paixão pelo desejo de aprender, principal bem humano.

De fato, leis que prevêem medidas punitivas para crianças e adolescente que não conseguem manter uma conduta aceitável em sala de aula, existem aos montes e, nem mesmo os professores chegam a tomar conhecimento da existência delas. Há um tempo, já tramita no Congresso Nacional o projeto de lei N° 6269/09 que criminaliza a agressão contra professores, dirigentes educacionais, orientadores e agentes administrativos de escolas. Dentro deste projeto de lei, a pena prevista é de quatro anos de detenção (em casos de agressão física) e de três anos (em caso de agressão moral). Outro exemplo é o projeto de lei do Senado 191/2009 que cria barreiras e punições contra alunos que cometerem agressões contra docentes. Esse PL foi aprovado pela Comissão de Educação e Cultura do Senado e não exclui as punições já previstas no Código Penal e no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). A grande dúvida que fica é o motivo de existirem tantos projetos e nenhuma lei, de fato, em vigor, que proteja o professor de violências. Uma boa resposta seria a demora para que esses projetos saiam do papel e se tornem, efetivamente, leis. Afinal, dos três projetos mencionados, um já foi arquivado e os outros dois continuam em análise pelo governo.

Projetos de Lei que visam a proteção do professor

PLS 191/2009: Estabelece procedimentos de socialização e de prestação jurisdicional e prevê medidas protetivas para os casos de violência contra o professor oriunda da relação de educação.
Apresentado em 12/05/2009
Situação atual: Matéria com a Relatoria da Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH)

PL 6269/2009: Tipifica o crime de desacato ao educador mediante ato de agressão física e/ou moral no exercício da função ou em razão dela
Apresentado em 21/10/2009
Situação atual: Arquivada na Mesa Diretora da Câmara dos Deputados (MESA)

PL 267/2011: Acrescenta o art. 53-A a Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990, que "dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências", a fim de estabelecer deveres e responsabilidades à criança e ao adolescente estudante.
Apresentado em 08/02/2011
Situação atual: Aguardando Encaminhamento na Comissão de Seguridade Social e Família (CSSF)

FONTES: www.senado.gov.br ; www.camara.gov.br



* Matéria publicada no Jornal Ibiá (Montenegro - RS), em 30 de março de 2012.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

A certeza capaz de mudar uma vida

Às seis horas da manhã do dia 30 de dezembro, ele já estava na maca, esperando pra entrar no bloco cirúrgico quando se deu conta do que estava acontecendo. Toda a ansiedade que aparentemente não existira durante todos os meses de espera, surgia naquele momento. “Vou sentir alguma dor?”, perguntou ao anestesista. Por detrás da máscara, o médico calmamente respondeu que não e completou: “Luciano, não te preocupa, lá pelas quatro da tarde, tu vai ser Luciana”.
Há pouco mais de um mês, a cabeleireira de um salão de beleza de Montenegro, desfila o corpo condizente com a personalidade feminina que diz ter desde criança. O que pra muitos é tratado simplesmente como transexualismo, para o Ministério da Saúde é conhecido como Transtorno de identidade ou de gênero. Trata-se de uma inadequação entre o sexo físico e o psíquico, de origem psicológica, que normalmente se manifesta na infância.
Aos 11 anos, Luciana escondia-se para usar os sapatos de salto da mãe e pintar as unhas de vermelho. O estranhamento dos meninos na escola a respeito do jeito diferente, a fez começar a se questionar. “É muito difícil porque no começo tu não tem nenhuma explicação. Tu te acha a única no mundo. Pensa que aquilo ali é um problema gravíssimo, que tu está doente, que tem alguma coisa errada”, conta a jovem de 29 anos.
Segundo artigo publicado na revista de maior circulação entre os médicos (The New England Journal of Medicine), as causas do transtorno ainda são desconhecidas. Estudos sugerem que o distúrbio pode estar associado a alterações da arquitetura cerebral. Entretanto, são apenas hipóteses. As origens da transexualidade ainda são um mistério. A identificação com o gênero oposto não pode ser explicada por alterações hormonais, nem por anormalidades nos cromossomos, como muita gente pensa.

A necessidade do apoio

Até chegar à sala de cirurgia, Luciana trilhou um caminho difícil e cheio de obstáculos. Aos 14 anos foi questionada a respeito de sua sexualidade pelo pai. A resposta, dita com sinceridade pela adolescente, soou impactante. “Eu não tenho mais filho, então”, respondeu o patriarca. Desde então, nunca mais teve contato com ele. “Naquele momento eu tomei minha decisão. E dali por diante só foi uma melhora, inclusive pessoal, pois tu deixas de te esconder pra ganhar teu espaço no mundo”, conta a moça. A situação delicada foi um fato isolado na vida. A mãe, os irmãos, a tia e até a avó aceitaram a escolha de Luciana que diz ter superado o incidente. “Pra que eu ia dar bola pra uma única pessoa. Hoje eu o tenho como um estranho. Superei tranquilamente.Depois da cirurgia, até melhor”.
Na adolescência, o convívio com outros homossexuais mostrou que a diferença era mais comum do que ela podia imaginar. A curiosidade fez com que, aos poucos, fosse aprendendo com aqueles que sofriam com os mesmos questionamentos e descobriu que se tratava apenas de algo fora do conceito de normalidade da maioria. “Tu vai se conhecendo, eles vão te explicando e tu acaba enxergando outro mundo. Tu vê que não é só contigo, que tem outras pessoas. Só que no decorrer disso, ser homossexual é uma coisa, ser uma mulher no corpo de um homem é outra. Não é só a preferência.” De fato, o transtorno de gênero é diferente de qualquer outro conceito por não se tratar de uma escolha meramente sexual com relação ao sexo oposto. Luciana comenta que a maioria dos homossexuais são ativos e passivos, enquanto ela sempre se sentiu atraída por homens como qualquer mulher normal.

A decisão pela cirurgia

Aos 18 anos, através dos amigos, Luciana descobriu que o Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) oferecia um programa de tratamento para pessoas com Transtorno de gênero. Entretanto, apenas há 3 anos a decisão foi realmente tomada. Através da motivação e do esforço da proprietária do salão onde trabalha, Irmgard Klabunde, a jovem foi, pela primeira vez, conversar com um médico sobre o assunto que conhecia apenas em partes. Posteriormente, foi encaminhada à Assistência Social de Montenegro, onde teve o aval para começar a freqüentar o programa no hospital da capital. Todo o tratamento é custeado pelo Sistema Único de Saúde (SUS) que acredita, juntamente com a medicina, que viver com esse tipo de transtorno é viver em sofrimento crônico. A triagem dos pacientes a serem operados é intensa e pode durar cerca de 3 anos, como foi o caso da cabeleireira. “Tu passa, sucessivamente por muitas consultas com psicólogos e com psiquiatras. E eles te afirmam o tempo todo que tu é homem, mas isso é pra tu teres a tua certeza. Tanto que eu me lembro,no começo, eles me chamavam de Luciano e eu ficava lá sentada e dizia que não tinha nenhum Luciano ali.” A terapia de grupo assistida por profissionais é uma forma de proporcionar o auto-conhecimento dos pacientes que estão sendo avaliados.

A mudança de sexo

No mundo, a primeira cirurgia foi realizada em 1952. Na Dinamarca, George se tornou Christine Jorgensen e, no ano seguinte, foi eleita a Mulher do Ano por diversos jornais e revistas. A história se espalhou e surgiram milhares de candidatos à operação.
Quase 20 anos depois o procedimento chegou ao Brasil e sofreu alterações ao longo de sua inserção no meio médico. Até os anos 70, a cirurgia de alteração do sexo masculino para o feminino consistia na amputação do pênis e a modelação de um orifício funcional. Na década seguinte, a modelo Roberta Close mostrou o novo método para o país, na revista Playboy de 1984 com a construção de um feixe de tecidos semelhante ao clitóris. Atualmente, o desafio é reproduzir esteticamente uma vagina, preservando as terminações nervosas para garantir o prazer sexual. No entanto, a ingestão de hormônios é realizada tempo antes para modificar a estrutura do organismo que passará a atuar de forma diferente. A intervenção cirúrgica é o último estágio do processo de mudança de sexo. Para Luciana, tudo ocorreu da melhor maneira possível por causa do suporte que teve de toda equipe médica durante o programa. “Eu apaguei, acordei às três e meia da tarde. Daí tu coloca a mão ali e te dá uma sensação de felicidade. Virou uma página na tua vida. Depois eu fiquei lá sozinha e fiquei pensando que tu tens que ser muito homem pra fazer essa cirurgia. A cabeça da gente é muito louca. Se fosse outra pessoa qualquer, não iria fazer.”, comenta.

A repercussão

Luciana afirma que muitas pessoas que fizeram o programa com ela, desistiram no meio do processo. A certeza do gênero que se tem, nem sempre é um diagnóstico fácil de fazer em si mesmo. Entretanto, pros que têm absoluta certeza do que são, a cirurgia de mudança de sexo é a porta para uma vida nova. “É tudo novo.Desde o xixi até o absorvente que eu tive que usar. Mas pra mim foi bem fácil. Eu podia ter um órgão masculino, mas eu nunca usei como masculino. Foi fácil me adequar. Quando eu tirei a sonda 14 dias depois, o primeiro xixi eu imaginei que ia doer. Prendi a respiração e fiquei pensando na dor. Não doeu.” Mesmo após a cirurgia, o acompanhamento ainda é constante por conta do processo de cicatrização. Contudo, a receptividade dos amigos ajuda a reafirmar a decisão da jovem em assumir, buscar e alcançar a solução para o problema. A própria chefe de Luciana, admite que agora ela parece mais feliz, mais completa. Nem mesmo a questão do preconceito de alguns desfaz a mágica da nova realidade em que vive agora. Ainda segundo estudos médicos, o tratamento cirúrgico melhora a qualidade de vida da maioria dos que optaram por ele. Quando bem indicado, apenas 1 a 2% confessam arrependimento. Certamente esse não é o caso em questão. A felicidade estampada nos olhos e a tranqüilidade em falar sobre o assunto, mostram que Olga Luciana Klung – como estará registrado em sua documentação em breve – está certa a respeito do que é e feliz por ter conseguido enfrentar toda essa batalha de peito aberto. “Hoje eu vejo que tudo isso foi bom pra mim, porque aprendi a me conhecer mais. Tu aprende a lidar melhor com tudo. Tu avalia as coisas que já fez pra saber o motivo de estar ali. O importante é o que eu penso de mim. Isso é o que realmente importa.”



*Texto publicado na edição do Jornal Ibiá, de Montenegro - RS, no dia 23 de fevereiro de 2012.

domingo, 4 de setembro de 2011

Tenho a impressão de que é assim que o negócio funciona.


Torneiras eficientes em economia de água. Você aperta, a água sai por um determinado tempo e depois pára. Felicidade deve ser mais ou menos isso. Um botão que todos temos e, em determinado momento, alguém aperta e pronto! Com o tempo, esse botão vai voltando pro estado estático de origem até que alguém chegue ali e o aperte novamente. Tenho a impressão de que é mais ou menos assim que o negócio funciona.

Mesmo que você aperte o seu próprio botão, alguém ou alguma coisa sempre tem a ver com isso. Seus amigos, sua família, seus sonhos, um dia de sol ou o cheiro do seu prato preferido quando você está chegando em casa com fome. Tudo surge ao pressionar o botão.

O engraçado é que essa torneira nunca estraga. Ela emperra de vez em quando - pelo menos pra mim - mas parar de funcionar, nunca. Se ficar jorrando água por muito tempo é bom! Mas, períodos de seca e ferrugem podem ser sinal de que algo vai mal.

Assim como é fácil apertar o botão, alguém pode colocar ali, bem ali, qualquer coisa que inviabilize a torneira de funcionar. Angústias, medos, frustrações são pequenas sujeiras que não deixam o botão ser pressionado. Você mesmo pode emperrar sua torneira, veja bem.

Então, de repente, entender como se dá o processo pode ser bom. Ficar atento quanto ao uso da sua torneira interna é importante. Saber utilizar a dos outros, também. Tem muita gente que não mede o quanto vai apertar o tal botão alheio e fica ali, pressionando desenfreadamente, até que cansa e vai embora. O que vem depois você sabe.

Tudo excessivo tem suas consequências. Essa torneira foi feita pra evitar desperdícios, não deixar correr água desnecessária. Talvez o grande aprendizado da vida seja saber usar corretamente esse botão, em si e nos outros. Quando você cansa e vai embora, deixa ali, naquela torneira de alguém, algo que pode dificultar o funcionamento. Você a sobrecarregou. Até que o dono consiga arrumar pode levar tempo. Até que alguém venha e a ative de novo, também.

Não sei se nada disso é certo. Talvez até não. Mas ainda penso que felicidade é como essa torneira aí. Apesar de você ter um estoque infinito de água, a grande sacada é saber usar a sua juntamente com a dos outros. Você pode até não concordar, mas eu já disse, não sei se nada disso é certo. Apenas tenho a impressão de que é assim que o negócio funciona.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Solúvel ou Insolúvel?

Caráter. Paroxítona terminada em r que, segundo o dicionário Aurélio, significa o conjunto dos traços particulares, o modo de ser de um indivíduo ou de um grupo. Ou ainda, índole, natureza ou temperamento.
Na sociedade brasileira, uma pessoa mau caráter é mal vista, certo?

Parece simples. Mas o que é ter bom caráter? Significa a mesma coisa pra todos? Em termos gerais, se agrega caráter aos comprometidos com a verdade e com a honestidade. Atitudes politicamente corretas, etc. OK. Mas nem tudo que é certo pra mim pode ser considerado certo por você. E numa situação de desespero? Você consegue manter seu caráter intacto ou é capaz de omití-lo por alguns instantes pra livrar sua pele? Me fiz todas essas perguntas ao assistir o notíciário matinal. Duas notícias de impacto. Dois exemplos de caráter.

A primeira delas, foi a divulgação de que alguns policiais teriam recebido propina da família do rapaz que atropelou Rafael Mascarenhas, minutos após o acidente que o matou.

PAUSA. Quem é Rafael Mascarenhas? É um jovem que perdeu a identidade ao morrer, por ter nascido filho de uma conhecida apresentadora de televisão.

Família de classe média alta do Rio, jovem possivelmente cursando ensino superior, criação invejada pelos menos abastados mas, pelo visto, sem nenhum conceito moral. O pagamento da propina em prol da omissão da culpa do filho é o exemplo visível da perda súbita do caráter em um momento de desespero. (Não sei se esse pai já tinha algum histórico de mau caratismo, mas prefiro partir do princípio de que todos são inocentes.) Certamente tentarão justificar o fato com o amor incondicional ou com o famoso jeitinho brasileiro. No meu ponto de vista, jeitinho brasileiro é equivalente a falta de caráter, se não completamente, é caminho direto pra chegar lá. E amor de pai ou de mãe é algo que rompe todas as barreiras, mas pelo bem do próprio filho, jamais deve passar por cima do caráter ou você criará um delinquente em potencial.

A segunda notícia foi a respeito da morte de um adolescente de 14 anos por conta de um disparo de um policial. O jovem foi atingido na rua quando estava ao lado do pai. As imagens do notíciário são chocantes. O pai aos gritos na rua, incrédulo. O policial culpado, também incrédulo, sem entender o que, de fato, ele fez. O jovem, como já dito, morreu. O policial se apresentou à polícia espontaneamente como culpado.

A tendência natural é que toda a população dita possuidora de um bom caráter e, obviamente, senso crítico, volte-se contra os culpados em ambos os casos. Não há nada de errado nisso. Porém, tente prestar a atenção na diferença brusca de caráter nas duas situações.
Desconheço o motivo do disparo do tal policial, mas acidental ou proposital por qualquer razão, ao assumir a culpa, ele optou por ter um bom caráter mesmo em um momento de desespero.

Nada justifica nenhum dos dois crimes. Mas é válido lembrar que mesmo pessoas de um caráter singular erram. Entretanto, a coragem de assumir o erro e arcar com as consequências é a maior prova de bom caráter que uma sociedade pode ter. Sem esquecer que é o presente mais útil, pra si e pra todos, que um filho pode levar pra vida.


sexta-feira, 5 de março de 2010

Welcome to the jungle


Na troca diária entre uma turma e outra, uma colega brasileira da turma seguinte comenta: " Como é tua turma? Meu professor, desde o primeiro dia de aula, me trata diretamente como a menina que veio da floresta"

Silêncio. Olhares.

Uma revolta incontrolável se dissipa rapidamente pelo meu corpo. Não sei explicar ao certo o motivo daquela sensação, mas era como se me ofendessem de tal forma que não pudesse mensurar minhas reações. Ela prosseguiu: "No curso que fiz aqui em Paris no semestre passado, na prova final caiu um texto de uma revista renomada daqui, falando do Brasil como o país da salsa. E agora mais essa."

Saí da sala com o choro em vias de se pronunciar. Indigesta com tanta arrogância e ignorância. Esperaria aquilo de qualquer povo, menos do francês, sempre dito tão culto e instruído. Pensei na sorte que tive em fazer parte de um grupo onde o mais próximo do desconhecimento foi me perguntarem se no Brasil se falava espanhol.

Agora, depois de refletir até a cabeça doer, vejo que tudo não passa de simples prepotência. Consideram o Brasil inferior por não saberem absolutamente nada a respeito. Aliás, até sabem, mas conhecem a história dos relatos de Hans Staden. Só pode ser isso.

O que me intriga é o fato de no Brasil, sabermos sobre os mais variados povos e, mais do que isso, caso não saibamos, é fácil digitar www.google.com na internet e ir atrás de fotos e informações. Internet é uma rede mundial ou me engano plenamente?

A conclusão a que chego me leva a crer que, a França - pois só tenho conhecimento dela pra falar - vive ainda a ressaca dos idos de 1900. Onde, no fervor da evolução cultural parisiense, Paris era o centro do mundo e os franceses o povo mais culto entre os povos. Seguem cultuando essa sabedoria sobre tudo, de fato. Há livros e cultura por toda parte. É perceptível todo esse conhecimento. Mas ao mesmo tempo percebo muita ignorância. Uma falta de humildade que beira o descaso. Isso mancha por demais um lugar tão mágico como Paris.

Chamaria isso - usando um neologismo meu - de "francocentrismo". E então, chegaria a ponto de entender que patriotismo é um sentimento que bem ou mal, todos temos. E saberia ver que ofendê-lo com a ignorância é sentir que a floresta é, definitivamente, aqui.